Como vender para ONGs e institutos: o dinheiro existe, mas é carimbado
Organizações da sociedade civil, institutos, fundações e OSCIPs movimentam orçamentos relevantes, contratam fornecedores o ano inteiro e quase nunca aparecem na lista de prospecção de ninguém. Parte disso é preconceito — "não tem dinheiro" —, e parte é desconhecimento de como o dinheiro chega ali. Uma ONG bem estruturada tem orçamento aprovado, prestação de contas rigorosa, auditoria e prazos mais previsíveis que muita empresa privada. O que ela não tem é liberdade para gastar como quiser: cada real está amarrado a um projeto, a um edital e a uma rubrica. Quem entende essa amarração vende bem e por anos; quem chega com proposta genérica ouve um não que parece falta de verba e é, na verdade, incompatibilidade de rubrica.
De onde vem o dinheiro, e por que isso decide tudo
São quatro fontes, e cada uma impõe regras diferentes ao seu contrato:
- Editais e projetos com financiador. Empresa, fundação, organismo internacional ou lei de incentivo. O dinheiro vem carimbado: o projeto define o que pode ser comprado, quanto e quando. Fora da rubrica, não existe.
- Convênios e parcerias com o poder público. Regidos por legislação específica, com prestação de contas formal e prazos rígidos. Fornecedor entra com documentação completa e regularidade fiscal em dia.
- Doação livre e captação própria. A única fatia sem carimbo — e a menor. É dela que saem despesas administrativas e o que não cabe em projeto.
- Receita própria. Venda de produto, serviço, curso ou aluguel de espaço. Cresce em organizações maduras e é a mais parecida com a lógica de empresa.
Em vez de "vocês têm orçamento para isso?", pergunte "isso entraria em qual projeto?". A primeira pergunta recebe um não educado; a segunda faz a pessoa pensar junto e frequentemente revela um edital em elaboração onde o seu serviço cabe. Vender para o terceiro setor é, muitas vezes, entrar no projeto antes de ele ser submetido — depois de aprovado, nada mais se acrescenta.
Quem decide, e em que ordem
A estrutura costuma ter mais camadas do que o tamanho sugere:
- Coordenação de projeto — quem sente a dor, executa e vai defender a compra internamente. É por onde a conversa começa.
- Direção executiva — aprova dentro do que o projeto permite e responde pelo conjunto.
- Área administrativo-financeira — confere rubrica, documentação e regularidade. Costuma ter poder de veto silencioso.
- Conselho — decide o que é estruturante ou acima de certo valor. Reúne-se poucas vezes por ano, e essa agenda define o seu prazo.
- Financiador — em projetos com recurso carimbado, pode precisar anuir a mudanças. Ninguém lembra disso até travar.
O erro clássico é vender bem para a coordenação e descobrir dois meses depois que a rubrica não comporta, que o conselho só se reúne em novembro ou que o financiador precisa aprovar. Perguntar o rito na segunda reunião economiza um trimestre.
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O que faz a proposta ser aprovável
Não é preço. É a proposta caber no formato de quem vai prestar contas:
- Escopo em itens mensuráveis, na mesma unidade do projeto: pessoas atendidas, horas de formação, unidades entregues.
- Preço decomposto, para permitir alocação em mais de uma rubrica quando necessário.
- Cronograma casado com o do projeto, inclusive respeitando data de encerramento — serviço entregue depois do fim do projeto não é pago.
- Documentação completa: regularidade fiscal e trabalhista, contrato social, dados bancários da pessoa jurídica.
- Nota fiscal com descrição compatível com a rubrica. Descrição genérica trava prestação de contas e atrasa o seu recebimento.
- Relatório de entrega, com evidência: lista de presença, fotos, produto final. A ONG precisa disso para prestar contas, e o fornecedor que entrega junto vira o preferido.
Três cotações costumam ser exigidas em projetos com recurso público ou de financiador. Isso não é desconfiança: é regra de prestação de contas. Facilitar esse processo — entregando proposta no formato pedido, com validade e prazo claros — resolve metade do trabalho da coordenação e conta pontos que nenhum desconto compra.
A conta de uma carteira
Empresa de tecnologia e formação com ticket médio de R$ 28.000 por projeto contratado.
Carteira de 64 organizações mapeadas em uma região, ao longo de um ano:
- Reuniões realizadas com coordenação de projeto: 41
- Casos em que havia projeto em elaboração ou edital aberto: 18 (44% das reuniões)
- Propostas incluídas em projeto submetido: 13
- Projetos aprovados pelo financiador: 7 — 54% dos submetidos
- Contratos assinados: 7 · Receita: R$ 196.000
Ciclo médio da primeira reunião ao contrato: 7,5 meses — porque o tempo é o do edital, não o seu. Em compensação, a inadimplência foi zero, o pagamento seguiu o cronograma aprovado e 5 das 7 organizações incluíram o mesmo fornecedor no projeto seguinte, sem nova concorrência.
Custo de aquisição por contrato: R$ 4.100, contra R$ 9.800 da carteira corporativa da mesma empresa. O ciclo é mais que o dobro, mas a taxa de recontratação e a ausência de calote fazem o valor ao longo do tempo superar o do cliente privado. É um mercado de paciência, não de volume — e por isso está vazio de concorrentes.
O calendário que ninguém acompanha
Vender ao terceiro setor é uma questão de estar presente na hora certa do ano:
- Editais de grandes financiadores costumam abrir em janelas fixas. Quem acompanha o calendário conversa dois meses antes, quando o projeto está sendo escrito.
- Leis de incentivo concentram captação no fim do ano, quando as empresas definem o quanto vão destinar. Projetos aprovados nesse período começam a executar no ano seguinte.
- Encerramento de projeto gera compra de última hora para cumprir rubrica que sobrou. É oportunidade real, e chega com prazo curtíssimo.
- Renovação de convênio público tem data conhecida e antecedência definida em norma.
Uma planilha simples com as datas de edital das principais fontes da sua região vale mais que qualquer lista de contatos comprada.
Cinco erros que fecham a porta
- Presumir que não há dinheiro. Há; ele só está amarrado, e a pergunta certa é em qual projeto cabe.
- Chegar depois do edital aprovado. Depois da submissão não se acrescenta item — o momento de vender é durante a escrita.
- Proposta com preço fechado sem decomposição. Impede a alocação em rubricas e trava a aprovação.
- Descrição genérica na nota fiscal. Trava a prestação de contas e atrasa o seu próprio recebimento.
- Tratar como caridade. Preço camarada sem sustentação vira problema: a organização precisa de fornecedor que continue existindo no próximo projeto.
Os números para acompanhar
- Organizações mapeadas por fonte de recurso, que é o que prevê o tipo de contrato possível.
- Reuniões em que existia projeto em elaboração — é o indicador de que a carteira está sendo trabalhada na hora certa.
- Propostas incluídas em projeto submetido, e quantas foram aprovadas pelo financiador.
- Ciclo médio por fonte: edital, convênio público, recurso próprio.
- Recontratação no projeto seguinte, que é o verdadeiro teste da relação.
- Prazo médio de recebimento, acompanhado por tipo de fonte.
O terceiro setor não compra impulso e não decide rápido, mas paga em dia, recontrata e quase não é disputado. Quem monta a carteira pela fonte de recurso, aparece enquanto o projeto está sendo escrito e entrega a documentação sem que precisem pedir duas vezes constrói uma receita previsível em um mercado que a maioria dos concorrentes nem enxerga.
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Falar no WhatsAppPerguntas frequentes
ONG tem orçamento para contratar fornecedor?
Tem, e frequentemente mais previsível que o de muita empresa privada — o que não tem é liberdade para gastar como quiser. O dinheiro chega por quatro fontes com regras diferentes: editais e projetos com financiador, em que o recurso vem carimbado e o projeto define o que pode ser comprado, quanto e quando; convênios e parcerias com o poder público, regidos por legislação específica, com prestação de contas formal e exigência de regularidade fiscal do fornecedor; doação livre e captação própria, que é a única fatia sem carimbo e também a menor; e receita própria de venda de produto, serviço ou curso, que cresce em organizações maduras. Por isso o não que parece falta de verba quase sempre é incompatibilidade de rubrica. A pergunta que muda a conversa não é se há orçamento, e sim em qual projeto aquilo entraria.
Qual o momento certo de vender para o terceiro setor?
Antes do edital ser submetido. Depois que o projeto é aprovado pelo financiador, nada mais se acrescenta: o que não estava previsto simplesmente não pode ser comprado com aquele recurso. Isso significa que vender ao terceiro setor é, muitas vezes, entrar no projeto enquanto ele está sendo escrito. Na prática, quem acompanha o calendário conversa dois meses antes da abertura das janelas de edital dos grandes financiadores. Vale conhecer também a concentração de captação por leis de incentivo no fim do ano, com execução no ano seguinte; o encerramento de projeto, que gera compra de última hora para cumprir rubrica que sobrou e chega com prazo curtíssimo; e a renovação de convênio público, que tem data conhecida e antecedência definida em norma. Uma planilha com as datas de edital das principais fontes da região vale mais que qualquer lista de contatos comprada.
O que faz uma proposta ser aprovada por uma ONG?
Caber no formato de quem vai prestar contas, e não o preço. Escopo em itens mensuráveis na mesma unidade do projeto — pessoas atendidas, horas de formação, unidades entregues. Preço decomposto, para permitir alocação em mais de uma rubrica. Cronograma casado com o do projeto, respeitando a data de encerramento, porque serviço entregue depois do fim do projeto não é pago. Documentação completa, com regularidade fiscal e trabalhista, contrato social e dados bancários da pessoa jurídica. Nota fiscal com descrição compatível com a rubrica, já que descrição genérica trava a prestação de contas e atrasa o seu próprio recebimento. E relatório de entrega com evidência — lista de presença, fotos, produto final. A exigência de três cotações em projetos com recurso público ou de financiador não é desconfiança, é regra: facilitar esse processo conta pontos que nenhum desconto compra.
Quem decide a compra dentro de uma organização do terceiro setor?
A estrutura costuma ter mais camadas do que o tamanho sugere. A coordenação de projeto é quem sente a dor, executa e vai defender a compra internamente, e é por onde a conversa começa. A direção executiva aprova dentro do que o projeto permite. A área administrativo-financeira confere rubrica, documentação e regularidade, e costuma ter poder de veto silencioso. O conselho decide o que é estruturante ou acima de certo valor, e se reúne poucas vezes por ano — essa agenda define o seu prazo. E, em projetos com recurso carimbado, o próprio financiador pode precisar anuir a mudanças, algo de que ninguém lembra até travar. O erro clássico é vender bem para a coordenação e descobrir dois meses depois que a rubrica não comporta ou que o conselho só se reúne em novembro; perguntar o rito na segunda reunião economiza um trimestre.
Compensa financeiramente prospectar o terceiro setor?
Compensa, desde que a expectativa de prazo esteja calibrada. Em uma empresa de tecnologia e formação com ticket de R$ 28.000 por projeto, uma carteira de 64 organizações mapeadas rendeu, em um ano, 41 reuniões com coordenação, 18 situações com projeto em elaboração ou edital aberto, 13 propostas incluídas em projeto submetido e 7 aprovações — R$ 196.000 em contratos. O ciclo médio da primeira reunião ao contrato foi de 7,5 meses, porque o tempo é o do edital e não o seu. Em compensação, a inadimplência foi zero, o pagamento seguiu o cronograma aprovado e cinco das sete organizações incluíram o mesmo fornecedor no projeto seguinte, sem nova concorrência. O custo de aquisição por contrato ficou em R$ 4.100, contra R$ 9.800 da carteira corporativa da mesma empresa. É um mercado de paciência, não de volume — e por isso está vazio de concorrentes.